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Alberi Matos - Entrevista ao Dez Na Rede


“Já joguei meu chapéu há muito tempo”. A declaração é de Alberi José Ferreira de Matos, que desembarcou em Natal no ano de 1968. A cidade, recorda, não passava de um “grande bairro”. Mas foi esse bairro que conquistou o coração desse pernambucano de 1,79m, que se tornou um gigante nos campos do Rio Grande do Norte.

Em 15 anos, ele atuou no Estado pelo América, Alecrim e Baraúnas, mas foi no ABC que se tornou ídolo. A “Frasqueira” o aponta como um dos melhores jogadores da história do clube, ao lado de Jorginho, tendo ganhado inclusive a “Bola de Prata” da Placar, em 1972, ao lado de craques como Leão, Marinho Chagas, Figueroa, Piazza, Ademir da Guia e Paulo Cezar Caju.

Hoje, 23 anos após abandonar os gramados e aos 60 de idade, ele trabalha na Secretaria de Esporte e Lazer, se diz desesperançoso de voltar a atuar com o futebol, mas garante que se tivesse uma chance, poderia descobrir novos talentos e fazer valer como formador de craques a habilidade que demonstrava dentro das quatro linhas:

Dez na Rede - Como era a situação do futebol quando você chegou em Natal no final dos anos 60?
Alberi - O salário era curto, mas não era só no ABC. Bem dizer, era assim em todos clubes do Nordeste, que sempre foram pobres. Agora, com José Prudêncio Sobrinho (ex-dirigente do alvinegro) eu cheguei a assinar até contrato em branco. Fosse hoje, ia pensar 10 vezes antes de assinar. Sabia que ele respeitava as pessoas. Hoje isso é raro.

Dez na Rede - E qual a grande lembrança do ABC daquela época?
Alberi - São muitas lembranças. Os jogos contra a seleção da Rússia, Flamengo, Botafogo, Palmeiras, tenho muitas lembranças e por todos clubes que passei.

Dez na Rede - Você se sente triste em ver as torcidas distantes dos estádios e hoje mais envolvidas em brigas nos estádios?
Alberi - A gente não pode comparar essa nova geração com a de 30 anos atrás. É muito difícil você ver hoje um talento do futebol jogar aqui em Natal. A obrigação da torcida é vir ao estádio, agora também a obrigação do presidente é contratar jogadores. Os times não estão em uma boa situação financeira e isso deve estar acarretando essa falta de jogador, mas também não é por aí. Se tivessem um tempo para preparar um time, tipo um time misto, por uns dois anos, para não precisar contratar jogador. Se fizessem um trabalho com a pessoa certa, acho que o ABC, por exemplo, ia melhorar muito. O ABC vai buscar pessoas lá fora, que não conhecem nem o Rio Grande do Norte. Aqui tem muitos caras bons para fazer um bom trabalho.

Dez na Rede - O América está na Segunda Divisão, o ABC tenta a terceira, esse é o lugar de direito dos clubes potiguares, ou é muito pouco?
Alberi - O América teve muita sorte. Foi para a primeira, caiu para a segunda, para a terceira, mas subiu naquele campeonato que fizeram, o João Havelange. Teve muita sorte porque o (deputado) Henrique Alves era da Secretaria de Esportes. Se o ABC procurasse ir a Brasília para dialogar, fazer alguma coisa, tenho certeza que os políticos ajeitavam o ABC melhor. Tem as empresas também que poderiam ajudar.

Dez na Rede - Ainda assim, a Segunda Divisão é o espaço merecido para os clubes daqui?
Alberi - Não vou falar em negócio de primeira, segunda, porque só joguei primeira divisão, nunca joguei segunda. O que acabou o futebol brasileiro foram os presidentes dos clubes. Quando surgiu o “Clube dos 13”, aí acabou o campeonato brasileiro. Veio módulo amarelo, divisão A, B e C. Aí piorou sempre o nível do futebol brasileiro e o valor do jogador. Só quem tinha valor é quem jogava nos 13 clubes, no Nordeste nenhum jogador tinha valor, não estava na primeira divisão.

Dez na Rede - Que salário o senhor acha que receberia se jogasse no futebol de hoje?
Alberi - Talvez não estivesse nem no Brasil, tivesse fora do Brasil. Hoje, qualquer jogador tem empresário e ganha muito mesmo sem jogar nada.

Dez na Rede - E a atual seleção, já pode ser comparada à de 1970?
Alberi - Não, aquela não vai poder ser comparada nunca. A melhor seleção foi mesmo a de 70, a de 1982 perdeu a copa, a de 70 ganhou e tinha jogador pra caramba. Falcão, Cerezo, essa seleção (de 1982) foi boa, mas com a de 70 não dá para comparar.

Dez na Rede - Mas o senhor ainda sente prazer de sentar na frente da TV para assistir partidas da seleção?
Alberi - Hoje tem brasileiro que nem sabe mais quando a seleção vai jogar. Eu sei, mas não tenho mais aquela empolgação. A seleção acaba ganhando, mas perde pra um, pra outro, fazendo raiva. Às vezes peço pra perder logo, pelo menos evita matar tanta gente do coração, porque morre mesmo.

Dez na Rede – Quando o senhor ganhou a Bola de Prata em 1972, ficou de fora dos últimos jogos. Chegou a torcer contra seus concorrentes?
Alberi - Torcendo contra os outros não, torcendo para eu ganhar. Nunca torci contra, até porque eu adorava quando os caras me xingavam. Jogava muito mais. Eles não sabiam disso, me xingavam de “filho da ...” e eu ainda respondia: “Beleza”. Aí dava mais estímulo.

Dez na Rede – Hoje, há alguma forma dos clubes locais conseguirem segurar as promessas e formar elencos de qualidade?
Alberi - Aqui em Natal e no interior tem muito jogador bom. É saber trabalhar. Só que bote uns caras que conheçam, o que vejo nos clubes é caras que não conhecem. Quando jogava futebol, os treinadores ensinavam a chutar a bola. Quando terminava o treino, ficava treinando falta, como bater na bola. Hoje, o jogador acabou de treinar, vai para a praia, não são profissionais, são anti-profissionais. Aí quando chega em campo não apresenta nada e a torcida fica xingando. A imprensa também fala muito em um bocado de cabra ruim.

Dez na rede - Mas o senhor ainda tem algum projeto no futebol, quem sabe abrir uma escolinha?
Alberi - Já joguei meu chapéu há muito tempo. Agora, se tivesse alguma empresa me apoiando, poderia fazer muito jogador, em tudo que era posição, quando deixei o futebol fui um bom treinador de goleiros, mas nunca me aproveitaram como treinador.

Fonte:

http://www.deznarede.com/onde_anda/alberi_matos